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A magia ancestral dos banhos de ervas

Foto do escritor: Lia da Pindorama Mística
Lia da Pindorama Mística
20 de jul.
6 min de leitura

Há milhares de anos, muito antes da criação de diversas religiões como conhecemos hoje, homens e mulheres já recorriam às ervas para cuidar do corpo, da mente e do espírito.


Civilizações como os egípcios, gregos, romanos, chineses e povos originários das Américas utilizavam banhos de ervas como um momento de purificação, relaxamento, fortalecimento e conexão com a natureza. O conhecimento sobre as plantas era passado de geração em geração, baseado na observação, na experiência e no profundo respeito pelos ciclos naturais.


Embora seja impossível apontar um único povo ou uma única data como a origem dos banhos de ervas, há ampla documentação histórica e arqueológica mostrando que essa prática surgiu de forma muito antiga e independente em diversas civilizações. Na verdade, ela parece ser uma das formas mais antigas de cuidado humano.


Alguns dos registros mais importantes são:


Antigo Egito (c. 1550 a.C.) – O Papiro de Ebers, um dos tratados médicos mais antigos do mundo, descreve o uso de centenas de plantas medicinais em preparações para o corpo, banhos e tratamentos de pele.  No entanto, acredita-se que essa prática seja ainda mais antiga, transmitida oralmente entre diferentes povos muito antes da invenção da escrita.

Os egípcios utilizavam ervas aromáticas como parte dos cuidados diários e também em rituais de purificação.

China Antiga (séculos VIII–III a.C., e possivelmente antes) – Os primeiros textos da Medicina Tradicional Chinesa já mencionam banhos com ervas para tratar enfermidades, aliviar dores e promover o equilíbrio do organismo. O Livro dos Ritos (Liji) e posteriormente o Huangdi Neijing (Clássico do Imperador Amarelo) fazem referência ao uso de banhos medicinais, tradição que continua viva até hoje.

Índia (Ayurveda) – A medicina ayurvédica, desenvolvida há mais de 3.000 anos, incorporou banhos preparados com ervas, flores e óleos como parte dos cuidados com a saúde, a higiene e o equilíbrio entre corpo e mente, registrando o fato somente 1000a.C..

Grécia e Roma Antigas – Gregos e romanos valorizavam os banhos não apenas para higiene, mas como forma de preservar a saúde. Embora fossem mais conhecidos pelos banhos termais, também utilizavam plantas aromáticas como alecrim, tomilho, louro e lavanda para perfumar a água e favorecer o bem-estar.

Povos indígenas das Américas – Muito antes da colonização, diferentes povos indígenas brasileiros e americanos já utilizavam infusões de folhas, cascas e raízes em banhos de cura, proteção e recuperação física, dentro de seus conhecimentos tradicionais sobre as plantas.

Povos africanos – Diversas etnias africanas desenvolveram práticas de banhos com folhas e ervas aromáticas para cuidados com a saúde, nascimento, iniciações e momentos importantes da vida. Esses conhecimentos chegaram ao Brasil e influenciaram profundamente a medicina popular e as tradições afro-brasileiras.


O mais interessante é que essas culturas se desenvolveram em épocas e lugares diferentes, mas chegaram a uma conclusão semelhante: as plantas podiam cuidar das pessoas de maneiras que iam muito além da alimentação.


Uma curiosidade interessante Os registros históricos sugerem que o uso de plantas em cuidados com o corpo esteve, em muitas sociedades, ligado simultaneamente à saúde, à higiene, à cosmética, ao bem-estar e à espiritualidade.

O banho de ervas "nasceu" muito mais ligado à medicina tradicional e ao cotidiano do que propriamente à religião. Em muitas sociedades antigas, não havia uma separação clara entre saúde, natureza e espiritualidade. Assim, tomar um banho de ervas podia servir para aliviar dores, tratar problemas de pele, perfumar o corpo, relaxar após um dia de trabalho ou marcar um momento de renovação.

Um banho perfumado com ervas podia ser, ao mesmo tempo um tratamento de saúde, um momento de higiene, uma forma de relaxamento, um gesto de beleza e/ou um ato simbólico de renovação.


Foi somente mais tarde que diversas tradições religiosas e espirituais incorporaram esses banhos aos seus rituais, atribuindo-lhes também significados simbólicos de purificação, proteção e fortalecimento.


Essa visão integrada é muito semelhante ao que hoje chamamos de autocuidado, sem que isso precise estar vinculado a uma religião específica.


Por isso, é historicamente correto afirmar que o banho de ervas é um patrimônio cultural da humanidade, anterior às religiões modernas e presente em praticamente todos os continentes, com diferentes objetivos e interpretações ao longo da história.


Hoje, mesmo com toda a tecnologia disponível, esse costume continua vivo. E não é por acaso. Preparar um banho de ervas é um convite para desacelerar. O calor da água ajuda a relaxar o corpo, enquanto o aroma natural das plantas desperta memórias, acalma a mente e transforma um simples banho em um verdadeiro ritual de autocuidado.


Cada erva carrega características próprias, reconhecidas há séculos:


Alecrim – conhecido por trazer sensação de disposição, clareza mental e renovação.

Lavanda – famosa por seu aroma relaxante, favorecendo momentos de tranquilidade e descanso. A palavra lavanda vem do latim lavare, que significa "lavar". Os romanos perfumavam seus famosos banhos públicos com essa planta, o que ajudou a popularizá-la por toda a Europa.

Sálvia – tradicionalmente utilizada em práticas de purificação e renovação de ambientes e da energia pessoal.

Arruda – uma das ervas mais populares nas tradições brasileiras quando o assunto é proteção e afastamento das energias densas.

Hortelã – refrescante, estimulante e capaz de proporcionar uma agradável sensação de leveza.

Manjericão – associado ao equilíbrio, à prosperidade e ao bem-estar em diferentes culturas ao redor do mundo.

Canela em pau – com seu aroma quente e acolhedor, é tradicionalmente relacionada ao entusiasmo, à vitalidade e à prosperidade.


E como preparar o seu banho?

1 - Infusão (água fervente sobre a erva seca) — o método mais comum. É o mesmo processo de preparar um chá.

Indicado para: folhas delicadas; flores; ervas secas aromáticas.

Você ferve a água, desliga o fogo e só então adiciona as ervas. Deixa em infusão por cerca de 10 a 15 minutos, com o recipiente tampado.

É o melhor método para: lavanda, alecrim, hortelã, manjericão, melissa, camomila, erva-doce.

Essas plantas possuem muitos óleos essenciais. Se elas forem fervidas junto com a água, parte desses compostos evapora.


2 - Decocção (ferver junto)

Esse método é utilizado para partes mais duras da planta.

Ideal para: cascas, raízes, sementes, galhos, madeiras

Exemplos: canela em pau, gengibre, casca de ipê, raízes em geral

A canela em pau, por ser uma casca dura, costuma ser preparada por decocção, que favorece a extração de seus compostos aromáticos.

Normalmente deixa-se ferver entre 5 e 15 minutos tudo junto: água + as partes do banho, na mesma panela.


3 - Maceração (água fria)

A maceração consiste em deixar a planta em contato com água fria ou morna por um período mais prolongado. Esse método pode ser utilizado quando se deseja uma extração de determinados componentes da planta que são sensíveis ao calor.


Na tradição popular brasileira, também existe uma forma de preparo diferente, feita com ervas frescas maceradas manualmente em água. Nesse caso, as folhas são amassadas com as mãos, liberando parte de seus sucos e compostos vegetais na água. Para muitas pessoas, esse gesto também possui um significado simbólico e energético relacionado à vitalidade da planta.


Para esse tipo de preparo, você pode lavar as ervas frescas, rasgar as folhas com as mãos e macerá-las em água em temperatura ambiente. Depois, a preparação pode ser coada e utilizada no banho.

É muito utilizada para banhos com ervas in natura, ervas e folhas que colhemos direto da natureza como boldo, guiné, manjericão, arruda, lavanda. (Ervas para maceração em banho devem ser frescas.)

Na tradição popular, as ervas frescas são muitas vezes maceradas manualmente, preservando a vitalidade da planta.


Uma planta não é apenas um conjunto de moléculas. Para quem conhece a magia das ervas, existe uma força viva em cada folha, em cada raiz, em cada flor. Por isso, as ervas frescas são tradicionalmente maceradas com as mãos e não fervidas. O gesto de tocar, rasgar e amassar a planta estabelece uma conexão entre quem prepara o banho e a força daquela erva.

Mas independentemente da sua crença, um banho de ervas pode ser um gesto de carinho consigo mesmo. Um momento para respirar profundamente, desacelerar, agradecer pelo dia e permitir que a natureza faça parte da sua rotina.


Porque, às vezes, tudo o que precisamos é de alguns minutos de silêncio, água morna e o perfume das plantas para lembrar que cuidar de nós mesmos também é um ato de amor.


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